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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Um Solitário Jamais Conhecerá a Própria Solidão

zerochan link

     
A solidão tem me sido uma companheira devota desde o meu nascimento, mesmo quando eu, um pequeno bebê, sequer havia capacidade de pensar sobre ela. Possivelmente a pressentia, mas o que são os sentimentos se você não puder compreendê-los? Apenas um aglomerado de sensações físicas que contribuem para o desenvolvimento do cérebro?
     Eu acredito que, para alguns seres humanos, em sua maioria (in)felizes dotados de uma exagerada percepção mental, a solidão não se caracteriza apenas como um complemento de nossa riqueza emocional ou condição social, mas como um aspecto inexoravelmente natural da alma humana. Tão presa em suas raízes que, sem nem mesmo ponderar, tal indivíduo carregaria esse fardo consigo eternamente, espiando apenas fragmentos de seu comportamento, os quais jamais o permitiriam refletir sobre os seus significados. Nunca questionaria o porquê e morreria em seu próprio isolamento, com uma alma inesperadamente elevada perante os comuns e de conhecimento abundante, enterrado por importunidades e sofrimento. Renegado pela sociedade, pela vida e pelo existir.
     Entretanto, há aqueles que abraçam a solidão conscientemente. Não se sabe ao certo se indivíduos como esses são reféns de uma condição naturalmente solitária e apenas não sabem ou, por não terem outra coisa senão o absurdo e o desgosto da existência, tornam-se, então, seres isolados. É, de fato, muitíssimo curioso analisar alguns de seus comportamentos. Por que alguém, cuja vida poderia ser facilmente social e regada por prazeres mundanos, abstém-se de tudo e de todos para se colocar num terrível estado de isolamento e, portanto, amargura? Mesmo a plenitude de nada valeria se não pudesse ser compartilhada, visto que um deleite pessoal morrerá no involucro do próprio ser. Observo, na verdade, uma tendência ao conformismo, pois absolutamente qualquer ser com consciência pode sofrer. E é muito fácil sentir desespero, tristeza, agonia, melancolia. São sentimentos não apenas comuns como excessivos e encontram-se na maioria das situações (mesmo nas mais felizes se pode extrair a infelicidade). Talvez — e isso é um talvez muito certo de que é um talvez — haja uma enorme consolação em aceitar que a vida é deprimente e que, se você conhece o fundo do poço tão bem, então de forma alguma poderá temê-lo. Olhará para todos os seres abençoados, os casais, e revirará os olhos de propósito. Sentirá admiração, mas a conterá com desprezo.
     Como poderia sentir-se mal estando vazio se o vazio se tornou uma condição aceitável?
     Mas não é sempre que você tem a escolha de guinar o seu sofrimento para outra direção. Às vezes, sofrer é simplesmente o que há. O que corrobora imensamente com o fato de abraçar a própria solidão com fervura e, com ódio, recusar todo o amor da humanidade. É a nobreza que sorri para você, a alegria de estar sozinho por querer, por decisão própria, e não exterior, e não de ninguém, e não do mundo. Jamais se sentirá de fato sozinho, pois a solidão se ofertará como companheira leal. Ela o ajudará a enfiar inferno abaixo toda a dor no peito que você sente ao olhar aqueles tipinhos de pessoas animadas, tão vazios quanto sua própria situação.
     Não é simples sofrer por querer, pois contradições nunca são sensatas e precisas, nunca trazem resultados verdadeiros e únicos. Quem diz gostar de sofrer, mente, afinal a própria palavra esclarece que dor prejudica e não ajuda. Na verdade, é algo mais próximo da autopiedade, do autodesprezo, do que qualquer outra coisa! Aaah, o meu amor nunca aparecerá, portanto devo morrer sozinho jogado num canto fétido e tóxico! 
     Fácil notar o quão paradoxalmente covardes são essas pessoas e os seus medos de assumirem o desespero e o anseio por aquilo que elas tanta evitam; da fraquíssima argumentação em torno do isolamento, a fim de justificar um desejo reprimido de se socializarem, de obterem tudo aquilo que as pessoas comuns, os casais, as famílias, têm. A escolha desses indivíduos é, consequentemente, uma desculpa débil e nebulosa que não convence nem a eles mesmos. É a forma de, opostamente, sofrerem menos, de se isolarem menos. A aceitação soa como um pedido de socorro, que roga pelo envolvimento de uma entidade capaz de tirá-los do buraco infindável. Dadas circunstâncias, de mãos abertas eles aceitam essa condição fictícia, cuidadosamente alimentada por falsas justificativas, e jamais se desprendem dela. Vivem amargurados, sozinhos, e nem mesmo a imortalidade conhecerão. Agravam o próprio enfermo, com a intenção contrária! Enquanto, a níveis inconscientes, juram estarem utilizando psicologia inversa quântica, eles simplesmente aprofundam o buraco do poço e depois se enterram nele. Dizem ao mundo que não precisam de alguém, que não precisam preencher a necessidade afetiva dentro deles, que tudo estará devidamente bem se, na jornada silenciosa e sofrível nesse solo em brasas, seguirem sozinhos. Evoluirá, se tornará singular e incrivelmente sábio, entretanto carecerá de qualquer essência e afeto humano. Desvirtuará ao nível de se tornar um ser de outra raça, o qual não encontrará mais abrigo no mundo e nem irmãos. Verá a natureza como uma dádiva inacessível, verá os animais como bestas, os seres humanos como criaturas rústicas e ultrapassadas, verá o céu como uma atmosfera de composição diferente da sombria névoa que existe na sua mente. Tudo se tornará tão distante que o mais delicado toque quebrará o espaço-tempo e o seu senso de lógica. De sua boca apenas sairá grunhidos distantes e impossíveis de se entender. Os seus olhos apenas verão matéria escura e pequenos pontos brilhantes. O inofensivo, que antes você evitava com temores, será mortal e cruel, e apavorará o âmago da sua sanidade.
     Chorará por infelicidade e toda a tristeza soará mil vezes mais pesada e tóxica. No fim, o vazio, cultivado virtuosamente, terá proporções maiores que a si próprio, engolindo-o, aniquilando-o. Num piscar, a imensidão do seu sofrimento absorverá o universo, e o sentido de seus dotes intelectuais, mesmo o mais longínquo e importante, se perderá.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O Paradoxo Existencialista de Um Paranoico

zerochan link

     Estou constantemente em paranoia. A paranoia da incerteza realística. Explico: é como se todas as probabilidades ruins e amargas da vida pudessem ser quantificadas por uma parte de minha mente e, assim, lançadas à realidade. Alguns também chamam este estado de pessimismo; mas se for, então é um nível tão denso e profundo de pessimismo (antes nunca vivenciado por mim) que se alguém com esta condição acredita na teoria mística de energia e vibração, e das coisas que podem ser atraídas por meio disso, ela provavelmente estará condenada. Pois viver dessa forma se torna uma dissonância cognitiva indivisível.
     É, de fato, cômico. Afinal, se é tão fácil prever as incertezas cruéis da vida e toda sacanagem que pode acontecer consigo mesmo, por que é extremamente difícil adivinhar o contrário? O problema dessa condição reside justamente no fato de que, por mais lógico que possa parecer, o medo, a paranoia, estão intimamente ligados ao medo irracional, próximos à superstição, à fobia. É quase como um transtorno. E é, na verdade, simples deduzir isso — basta um pouco de lógica. Dou-lhes um exemplo: suponhamos que você tenha um grande estoque de água potável em sua casa. Então, matematicamente, a chance de morrer de sede é extremamente pequena, pois não apenas o estoque está avaliado a durar muito, como pode ser reposto. Nesta circunstância, você deveria pensar: tudo bem, a respeito de água, estou ótimo. Mas não é assim que funciona com a paranoia. Você diz para si mesmo: e se de repente essa água se esgotar e eu não tiver mais condições de abastecê-la? Então arranjará quinhentos motivos plausíveis, porém improváveis de acontecer, a fim de reforçar o seu "pessimismo".
     Vamos mais a fundo e pensemos o seguinte (aqui é cálculo puro): diremos que o índice de violência em sua cidade é relativamente baixo. As taxas de crimes são medianas e boa parte dos casos são resolvidos. Talvez apenas 0,2% da população dessa cidade seja de caráter criminoso, predispostos a cometerem um ato hediondo. Num lugar de 200 mil pessoas, o número de criminosos, então, seria algo em torno de 400. Bem, ainda são bastante criminosos. Porém, são 400 pessoas ruins no meio de 199.600 pessoas normais. O paranoico se concentra especificamente na exceção, nos 0,2%, mesmo sabendo que por mais improvável que seja é plausível e, portanto, realista. Até porque são quatrocentas pessoas, e não zero. Como se livrar dessa dissonância? O lado bom é explícito e está ali — e antigamente ele até mesmo o enxergava, mas deu azar e vislumbrou a exceção. O que aconteceu com sua visão? Tornou-se mais realista ou mais amargurada? Fora apenas o mundo que lhe mostrou o quão irrealista era sua antiga perspectiva de vida ou é apenas o pobre homem que a está distorcendo e exacerbando o incogitável? O seu corpo hiper-vigilante já não reconhece mais a tranquilidade. E ele está plenamente consciente que o perigo reside em cada espaço onde há vida, pois, naturalmente, todos caminham para o mesmo rumo; embora não consiga, a níveis profundos de consciência, reconstruir a imagem de que o mundo era um pouco mais inofensivo.
     Assim, há a impressão de que a mente caminha ao abismo, acumulando todo o fardo negativo encontrado na estrada, até o escuro. Este medo irracional, porém tolerável, transforma-se em um gás letal. Não é possível que um futuro exista se ele é visto como uma tragédia, porque um acontecimento terrível é simplesmente o presságio do fim. E uma mente de consciência exagerada jamais conseguiria ponderar a possibilidade de adentrar a ignorância cotidiana exatamente por temer irracionalmente. A fobia de Murphy. De pensar naquilo e antever o acontecimento, de não pensar e antever o acontecimento e de pensar no oposto e, mesmo assim, antever o acontecimento. Viram o paradoxo existencialista de um paranoico? De repente, vive-se uma vida amargurada e de potencial absurdamente limitado. Coisas são deixadas de lado. A aceitação da morte e do fim do universo conforta o coração momentaneamente, mas de forma alguma consegue inibir o amargor. Porque você não quer morrer, você não quer deixar de existir, você quer exatamente o oposto! Contudo, a vida não parece combinar com o mundo atual e se torna impossível decidir um futuro bom numa perspectiva lúgubre e curta. Então o paranoico se pegará perguntando o seguinte: mesmo por um segundo, a partir do momento que você vivência o lado negro da existência, toda ela se tornará negra? Ou isso depende apenas de você e de toda ajuda psicológica e medicamentos que o mundo puder lhe empurrar? Pois ele sabe que o lado iluminado e sublime existe, entretanto, uma vez integrado no canto oposto, ele não sairá dali. Afinal, é muito mais fácil entrar do que sair. Não é o que as leis dizem? É paradoxal, mas, ao mesmo tempo, crível, como se depois que experimentada a exceção, fazer parte dela cria um novo universo onde as 199.600 pessoas são criminosas e apenas as 400 são normais.